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Conheça Machado de Assis

Atualizado: 28 de out. de 2021

Não suspeitava Dona Maria José de Mendonça Barroso, viúva de Bento Barroso Pereira, senador, oficial general do exército, ministro duas vezes, de D. Pedro I e da Regência trina, que seu nome só passaria à posteridade por haver, em 13 de novembro de 1839, consentido em ser madrinha de uma criança nascida a 21 de junho desse mesmo ano, numa casinhola vizinha da sua chácara. Era o primeiro filho de Francisco José de Assis e Maria Leopoldina Machado de Assis, ele mulato e pintor, nascido já de pardos forros, ela portuguesa, ilhoa, e, segundo a tradição, lavadeira. Gente humilde, mas organizada, legitimamente casada, benquista no morro do Livramento, onde morava. (Lúcia Miguel Pereira)
Quem foi Machado de Assis, ou melhor (como sua obra o imortaliza), quem é Machado de Assis?

Aos nove anos de idade Joaquim Maria Machado de Assis já não tinha mais a mãe e a única irmã que morrera três anos antes. Seu pai casou-se com Maria Inês, doceira de profissão, que o ajudou na criação do filho. Pouco tempo depois, a vida lhe reservava outra perda, a do pai. Ou seja: órfão, pobre e mulato numa sociedade escravista, tímido, gago, epilético e de saúde frágil, não deixa de ser surpreendente a trajetória percorrida por este extraordinário brasileiro.


Aquinhoado com talento imenso, despido de vaidade e desprovido de apego às glórias mundanas, Machado de Assis foi homem de enorme dignidade e força moral. Aos 16 anos se empregou na Imprensa Nacional e pouco depois na Tipografia de seu amigo e protetor Paula Brito. Foi leitor voraz, frequentador assíduo da Biblioteca Nacional e do Real Gabinete Português de Leitura.


Sua primeira publicação literária, um soneto, data de 1854, quando tinha apenas 15 anos de idade. Desde então, descortinou-se uma longa caminhada literária de meio século, só interrompida por sua morte em 1908.


Paralelamente, o escritor desenvolveu uma carreira burocrática exemplar, como funcionário do Ministério de Viação e Obras Públicas, onde alcançou o cargo máximo de Diretor Geral.


O autor alinhou em sua biografia variados gêneros literários: foi poeta, jornalista, cronista, teatrólogo, crítico literário e musical, contista e romancista, transitando do verso à prosa, da ficção ao ensaio com sóbria elegância de estilo, o que o tornava distinto de seus contemporâneos nacionais. Humor fino, aversão aos arroubos sintomáticos da escola romântica, sutileza nas entrelinhas, ironia, propensão à análise de costumes e, sobretudo análise psicológica dos personagens são marcas indeléveis de toda a sua obra. Talvez, nenhum autor em língua portuguesa, de qualquer época, se tenha debruçado tanto e com tanta sensibilidade e perspicácia sobre a alma humana e seus mistérios insondáveis, especialmente a alma feminina.


A obra ficcional de Machado de Assis retratou fielmente a vida carioca e brasileira do século dezenove. Deixou-nos uma numerosa e instigante bagagem como cronista, já que dele se conhecem mais de 700 crônicas escritas entre 1859 e 1900. Em todas essas revelou a mesma finura de observação, a ironia piedosa e cética que caracterizaram a sua visão de mundo, assim como expressaram seus contos e romances. Conseguiu, pois, o feito máximo para sua arte.


O ato da criação em Machado de Assis, Presidente e fundador da Academia Brasileira de Letras, além de garantir sua perpetuação num diálogo interminável com a posteridade, numa função fecundante, é impossível de ser ignorada, porque é sobre ele que se consolida uma cultura.

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